Qualidade de Vida

18/06/2015 09:11 - Atualizado em 02/12/2016 07:23

Leila Ferreira escreve sobre a arte de viver mais leve e feliz

"Ser leve não é se alienar. Temos vivido no piloto automático, sem pausas para refletir."

POR

Cláudia Giúza Mercier

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O Vivo Mais Saudável convidou a jornalista, palestrante e escritora Leila Ferreira para um bate-papo sobre como levar a vida de forma mais leve e feliz.

Autora de títulos que falam sobre a arte de encarar os desafios de maneira mais suave, positiva e bem-humorada, Leila Ferreira afirma que a felicidade é encontrada em doses homeopáticas, distribuída a conta-gotas. 

O seu último livro "Viver não dói" ganhou destaque na novela da TV Globo "I Love Paraisópolis", sendo a obra escolhida pela personagem Clarice, interpretada pela atriz Ângela Vieira.

Você é o nosso convidado a participar dessa conversa e a compreender que, mesmo com as dificuldades e frustrações, é possível seguir com mais leveza e ternura. Afinal, "Viver não dói"!

VMS: Como conseguir ter mais leveza e carregar o "peso" da vida?

Leila Ferreira: Antes de mais nada, é preciso deixar claro que aprender a ser leve não é fácil. Mas é possível. Não a leveza dos livros de ficção ou dos filmes adocicados: essa, felizmente, está fora do nosso alcance, porque, do contrário, viver seria um tédio, uma "sessão da tarde" sem fim.

A leveza a que me refiro é aquela que convive com as angústias, as perdas, as frustrações cotidianas e as dificuldades muitas vezes gigantescas que fazem parte do viver. Ser leve não é se alienar. É ter em conta que a condição humana é precária, a vida é muito complexa, mas, mesmo assim, ou exatamente por isso, precisamos desenvolver mecanismos para reduzir o peso que carregamos dentro de nós.

Andamos obcecados com o peso do corpo - a ele estamos sempre atentos. Mas nossas almas andam obesas. Estamos cada vez mais estressados, ríspidos, intolerantes, ou seja, corremos o risco de ficar com corpos esbeltos e obesidade mórbida de espirito.

VMS: E como reduzir essa carga interior?

Leila Ferreira: Cada um vai achar seu caminho. Mas acho que, qualquer que seja esse caminho, ele começa por uma reflexão, uma tomada de consciência. Temos vivido no piloto automático, sem pausas para refletir, e nessa correria desenfreada é muito fácil adotar comportamentos que nos fazem mal, nos adoecem emocionalmente. 

VMS: O que é felicidade para você?

Leila Ferreira: Acho que a melhor definição de felicidade que eu já vi foi uma frase escrita em um outdoor, em Paris: "A felicidade é a soma das pequenas felicidades". A partir dessa frase, meu conceito mudou. Eu vivia esperando aquela felicidade em letras maiúsculas, com vários pontos de exclamação. 

Hoje acredito numa felicidade discreta, modesta, uma felicidade homeopática, administrada em bolinhas quase imperceptíveis. Um pôr de sol aqui, um café recém-coado ali, uma paixão que nos pega de surpresa, uma amiga que nos faz rir... tudo isso, somado, pode levar à felicidade. Pode, que fique claro. Porque para a felicidade não existem garantias.

VMS: O que deixa a Leila Ferreira em paz?

Leila Ferreira: Antes de mais nada, um bom livro. Quando leio uma história que me apaixona (principalmente os livros policiais), o mundo real deixa de existir e, como o mundo real não anda fácil, "fugir" dele por algumas horas nos acalma. 

Mas é claro que existem outras coisas: ver que as pessoas que eu amo estão com saúde, fazer caminhadas em silêncio na Serra da Canastra (Minas Gerais) ou em Cascais (Portugal), saber que, de alguma forma, consegui ajudar alguém.

VMS: Como ser uma mulher "moderna" nos dias de hoje?

Leila Ferreira: Não sei mais o que é ser moderno nos dias de hoje. Eu tenho me sentido jurássica, pra dizer a verdade. Sempre me lembro de uma frase do Millôr Fernandes que dizia algo como "O futuro chega com tal velocidade que eu já começo a suspeitar que ele está atrás de mim".

Hoje, acho que nem os jovens conseguem mais acompanhar o tempo. As mudanças são vertiginosas, desconcertantes, e a gente vai tentando entender e se ajustar na medida do possível. Tento ser uma mulher do meu tempo, porque ficar repetindo o mantra de que "antigamente era melhor" não leva a lugar algum. Mas confesso que é difícil.

VMS: O que é ter maturidade?

Leila Ferreira: Acho que ter maturidade é a gente se conciliar com o tempo, por mais difícil que isso seja. Envelhecer pode ser um processo vivido com revolta, amargura (o pior dos pecados) ou a sempre inútil negação. 

Amadurecer, não. Eu associo o amadurecer a uma dose modesta de serenidade (já está de bom tamanho) e a uma dose generosa de senso de humor. Envelhecer "esperneando" e sem senso de humor é um destino que ninguém merece.

VMS: Você se considera uma pessoa muito otimista ou realmente é possível levar a vida com mais suavidade, com menos dor?

Leila Ferreira: Uma vez entrevistei o maravilhoso Ariano Suassuna e ele repetiu na entrevista uma frase que havia dito antes, e que eu acho perfeita: "Não sou otimista, nem pessimista. Sou um realista esperançoso".

Nunca tive "alma de Poliana". Tenho medo do otimismo descabido, irracional, aquele otimismo infundado que geralmente causa estragos.

Mas também evito o pessimismo crônico dos que passam a vida arrastando correntes. A leveza que eu defendo é fruto de uma visão esperançosamente realista (ou realisticamente esperançosa) da vida. É a leveza do sonho possível, e não do delírio.

VMS: Na sua opinião, de que o mundo anda precisando?

Leila Ferreira: Correndo o risco de ser óbvia, começo citando o ingrediente que anda mais em falta nos nossos dias: a gentileza. Com a epidemia de falta de educação que estamos vivendo, não há convivência que se salve e, sem convivência de qualidade, seja em casa ou no trabalho, não existe qualidade de vida.

Para viver com qualidade, e ter mais leveza e alegria em nossos dias, é preciso recuperar a civilidade, o respeito pelo outro, a delicadeza, a empatia.

Não adianta fazer pilates, tomar chá verde, malhar diariamente, comer semente de chia e sair maltratando os outros por aí (ou sendo maltratado por eles). Os conflitos nos adoecem, e, onde há grosseria e desrespeito, inevitavelmente há conflitos.

VMS: Como fazer da solidão uma boa companheira? 

Leila Ferreira: Acho que a primeira coisa é tentar dissociar o conceito da conotação negativa que nossa cultura atribui à solidão. É comum associarmos o estar só ou o viver só com rejeição, fracasso, falta de popularidade, abandono, incapacidade de se relacionar etc.

Nem sempre se fica sozinho por falta de opção. Pode ser uma escolha com a qual as pessoas convivem perfeitamente bem. E, mesmo que as circunstâncias nos levem à solidão, nem sempre isso resulta em amargura ou tristeza. 

Há quem descubra no estar só imposto pela vida uma liberdade surpreendente, um bem-estar inesperado. O fato é que muita gente se priva de viver experiências e processos emocionais extremamente interessantes por medo de estar desacompanhada.

A solidão ensina muito. Ela nos ensina inclusive a viver nossos relacionamentos, sejam eles amorosos, sociais ou familiares, de forma mais saudável.

VMS: A gente costuma dizer que "se conselho fosse bom todo mundo o venderia". Mas muitas pessoas se inspiram na sua forma simples de encarar a vida. Você se considera uma boa conselheira? 

Leila Ferreira: Eu nunca tive a intenção de dar conselhos, ou de escrever um livro clássico de auto-ajuda, porque a verdade é que eu me sinto tão incompetente para viver (mesmo depois de sete anos de psicanálise, ou talvez por isso mesmo), que eu jamais me colocaria na posição de aconselhar alguém.

Mas, ironicamente, as livrarias sempre colocam meus livros na seção de auto-ajuda e meus leitores frequentemente me dizem que têm sido ajudados pelo que escrevo.

Se isso de fato acontece, sou obrigada a admitir que, mesmo não tendo a intenção de escrever para aconselhar, se minhas palavras têm servido para fazer refletir e viver melhor, fico extremamente contente.

VMS: O que você diria a uma pessoa que está lutando contra a depressão, mas não consegue se libertar? 

Leila Ferreira: De novo, quem sou eu para aconselhar?... Mas, pensando na minha própria experiência (eu me trato de depressão há alguns anos), a primeira coisa que eu diria é: não lute contra a depressão.

Ouça o que ela tem a dizer primeiro, tente entendê-la e se entender a partir dela. É claro que ninguém quer viver deprimido, mas a gente não pode ter a ilusão de que depressão se vence apenas com força de vontade, que basta a gente querer para ser capaz de "vencê-la".

A ideia de que é uma fraqueza ficar deprimido é de uma covardia e uma ignorância imensas. Além da tristeza imensa da depressão, você ser acusado de fraco porque não "sai dela" é absurdo. Procure ajuda profissional. Não é nenhuma vergonha tomar fluoxetina nem fazer terapia.

VMS: Como encarar a morte de um ente querido? 

Leila Ferreira: Quando perdi minha mãe e um irmão, vi que as palavras não alcançam o território da dor. A vida se transforma num exercício silencioso de espera: a gente espera a dor melhorar, a tristeza parar de nos engolir, os dias voltarem a ter as cores de antes, nós voltarmos a ser o que éramos antes...

Acho que nada volta ao que era. Mas a dor suaviza, os dias deixam de ser cinza e nós aprendemos a ser pessoas que carregam a falta dentro de si, mas que, mesmo assim, conseguem viver, sentir, sonhar, ter alegrias.

VMS: Num primeiro momento, o "Viver não dói" seria um livro sobre "solidão". Seu próximo projeto falará sobre esse assunto?

Leila Ferreira: Eu realmente tinha planos de escrever um livro sobre o que chamo de "solidão do bem" - aquela que a gente escolhe, ou precisa, e não tem a conotação negativa que se costuma atribuir à solidão.

Cheguei a entrevistar o sociólogo Eric Klinenberg, autor do livro "Going Solo" (Voo solo), que fala sobre o aumento expressivo do número de pessoas vivendo sós, muitas por escolha, e o significado desse novo estar só.

Mas depois vi que, apesar de sempre ter amado a solidão, eu não estava pronta para escrever sobre o tema. Preferi me dedicar a um outro projeto que estava engavetado: a adaptação para o teatro do meu livro "Mulheres: por que será que elas...?". O texto está pronto e tem uma boa chance de ser encenado. Estou na fase de torcer para que isso aconteça.

E você? Tem procurado uma forma de levar a vida mais leve? Comente aqui e aproveite para conferir dicas de bem-estar que você só encontra no Vivo Mais Saudável.

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