Qualidade de Vida

26/06/2015 06:00 - Atualizado em 29/10/2016 01:03

EUA aprovam casamento entre homossexuais. Aqui, a luta continua

Abra a mente! O Brasil ainda precisa de campanhas que estimulem o debate sobre liberdade sexual como um direito.

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Ruy Filho

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O Dia Internacional do Orgulho Gay já pode ser comemorado com louvor pelos norteamericanos. A Suprema Corte dos EUA aprovou o casamento entre homossexuais, ou seja, em 50 estados.  

Enquanto isso, no Brasil, a liberdade sexual anda a passos curtos. Mas, em busca de novos caminhos, o editor da revista Antro Positivo, Ruy Filho, lançou no mês passado a terceira edição da campanha Liberdade Na Vida/ Na Arte, que mostra um seleto grupo de atores do mesmo sexo aos beijos. A repercussão gerou divergentes opiniões. Para explicar a ideia da campanha e toda repercussão, o Vivo Mais Saudável conversou com Ruy Filho.

Casamento homoafetivo: entenda a situação no Brasil

1. Como surgiu a campanha ‘Liberdade na Vida/ Na Arte’, como ela foi divulgada e o que a motivou?

A campanha surgiu em 2013. Sempre trazemos nas edições da revista Antro Positivo alguma campanha. Às vezes, divertidas, outras sérias e urgentes. A "Liberdade Na Vida / Na Arte" surgiu na urgência de dois acontecimentos. Primeiro, a reação violenta ao beijo dado por Fernanda Montenegro em Camila Amado durante uma premiação no Rio de Janeiro; e também à censura do espetáculo 'Edifício London', sem que se tenha lido a peça publicada ou assistido aos ensaios da montagem. Unindo a percepção de que, de modos distintos, ambos acontecimentos revelam um processo de perda da liberdade, seja nas escolhas pessoais, seja nas artísticas, convidamos atores e atrizes para um ensaio fotográfico em que beijariam alguém do mesmo gênero.

2. O que é a Antro Positivo e como aconteceu a seleção de atores para a campanha?

A revista Antro Positivo é uma publicação digital sobre teatro, política cultural e pensamento contemporâneo, gratuita e com acesso livre. Nosso foco é promover reflexões mais profundas a respeito de nossa época e potencializar a manifestação desses pensamentos em respostas estéticas, sobretudo pelo teatro e dança, tanto brasileiros quanto internacionais. Selecionamos os artistas em 2013, inicialmente, pelos amigos que sabíamos estarem igualmente incomodados com ambas as questões: homofobia e censura. Aos poucos, eles foram indicando outros e o convite se espalhou para o primeiro grupo fotografado. É preciso dizer, ainda, que a campanha ocorreu também pelo envolvimento e olhar do fotógrafo Alex Silva.

3. Por que levantar o tema homossexualidade?

É estranho ainda termos que falar sobre isso. Assim como é muito triste a urgência de gritarmos contra a homofobia, transfobia e todas as variantes. O país vive um momento crítico de moralismo e conservadorismo que certamente se revelará histórico. Falar sobre as liberdades entre os gêneros não se limita apenas a defender as relações homoafetivas, mas, e principalmente, a liberdade de todos nós, de qualquer um, em sermos quem desejarmos ser. Ao não ser aceito, alguém, por qualquer motivo, é como se todos fossemos proibidos de existir. É preciso entender que não há diferença entre as pessoas. As estruturas sociais, econômicas, raças, gêneros, nacionalidades, orientações afetivas são derivações de uma única realidade: somos pessoas e nada deve interferir na percepção dessa igualdade fundamental. A condição explícita de negação aos homoafetivos diz respeito ao ser-humano, e não a um grupo específico, independente das escolhas de cada um.

4. Qual foi a repercussão da campanha, houve alguma reação que te marcou?

Houve muita reação, positiva e negativa. Quando fizemos o primeiro ensaio, em 2013, fomos acusados de heterofóbicos. Realizamos um segundo, ainda em São Paulo, com atores e atrizes beijando alguém do mesmo gênero e de gênero diferente. Agora, em 2015, com a oportunidade de estarmos no Rio de Janeiro, aproveitamos para convidar artistas cariocas e fizemos esse terceiro ensaio. Para além da agressão previsível dos homofóbicos, religiosos conservadores e outros, fomos acusados de racistas pela pouca presença de artistas negros. É claro que esse é um fator a ser observado com atenção dobrada. Ocorre que estamos em um momento onde acusar é terrivelmente mais fácil do que pensar junto e construir algo. Mas isso faz parte de se expor, então vamos em frente. Talvez uma das respostas mais bonitas e interessantes tenha sido de uma garota que nos escreveu dizendo que, no início, as imagens dos beijos a incomodava, e que isso a levou a pensar o motivo quando concluiu que a campanha era fundamental, pois ela descobriu o quanto precisa conviver mais com imagens como essa para as entender como cenas normais, e nos agradeceu. Saber disso supera todas as agressões que temos recebido.

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5. Homossexualidade nas novelas está cada vez mais comum. Como você avalia a abordagem do tema atualmente na TV?

Durante muito tempo me incomodou como a homossexualidade era tratada nas telenovelas, por condicionar o homossexual a uma caricatura, ou seja, com certo exagero. Aos poucos, essa narrativa sobre a percepção do outro tem mudado, e a presença do homossexual se dá como alguém comum. Isso é de importância incalculável, pois conduz o imaginário da sociedade a compreender como natural. É no convívio diário que as pessoas passarão a aceitar sem qualquer tipo de julgamento. Temos que ter ainda mais. É muito importante que os grandes artistas estejam ocupando esses papéis, e não apenas os coadjuvantes.

6. Como o governo brasileiro poderia contribuir para uma mudança de mentalidade quanto à liberdade sexual?

Primeiro, entender que cabe ao governo igualar todo e qualquer cidadão em seus direitos, e que as escolhas afetivas de cada um não justificam diferenciações, pois estas se colocam apenas como limitações por dogmas religiosos, e o Estado brasileiro é oficialmente laico. Segundo, criminalizar as formas de violências específicas e de diminuição dos direitos. Hoje, temos um Congresso assustadoramente conservador e destrutivo ao país e à democracia. Isso é preocupante. É preciso estar em alerta, pois o movimento de substituição dos direitos por valores dogmáticos está em plena ação. É urgente provocarmos uma reviravolta nessa situação.

7. Para quem ainda não conversou sobre a homossexualidade com família e amigos, que conselhos deixar?

Tratar como algo natural, e não algo específico, diferente. Da mesma maneira que um pai ou mãe precisa educar seu filho de que o importante são os sentimentos para com o outro, e que o desejo é um desdobramento permitido, pois ama-se alguém e não algo. Também os filhos precisam ensinar os pais a compreenderem o outro como uma pessoa a quem se ama, e não como um gênero e código social. Toda desconstrução de preconceitos culturais históricos é complexa. Portanto não é fácil aos pais ou filhos inverter a lógica dominante. Mas é preciso. Ou estaremos, verdadeiramente, deixando de compreender o mais básico do ser: buscamos no outro uma maneira de permanecermos vivos, e o ato de amar é, principalmente, a tradução mais bela e plena da vida, e que podemos sim, viver em qualquer outra pessoa, de qualquer sexo, cor e identidade, portanto, somos capazes de amar quem for, basta nos entregarmos à mais profunda liberdade. Amar nunca pode ser considerado um equívoco.

8. A Suprema Corte dos EUA aprovou o casamento homoafetivo em todo o país. Qual sua opinião sobre a aprovação?

Acho incrível! É preciso perceber um detalhe nisso muito interessante. A legislação americana é também local, ou seja, muitos assuntos complexos, como a pena de morte, são válidos em alguns estados e outros não. O casamento gay ser uma diretriz nacional reflete o quanto a dimensão de luta contra o preconceito é fundamental à democracia.

9. Isso significa que o Brasil ainda se arrasta em relação ao casamento homoafetivo?

Que democraticamente estamos atrasados no entendimento das igualdades e das percepções.


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