Amor e Sexo

08/06/2015 12:24 - Atualizado em 02/12/2016 09:54

Sem idealizações e preconceitos! Regina Navarro Lins fala de amor

Fidelidade, ciúme, sexo independente do amor, medo de ficar só... Antes de você se relacionar e buscar sua cara metade por aí, repense que ideia é essa de amor que há aí dentro de você.

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Redação

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Ela nem integrava a bancada do programa 'Amor & Sexo' da TV Globo quando já somava mais de 30 mil seguidores no twitter. Para você saber um pouquinho mais de quem nós fomos ouvir falar de amor, Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 11 livros sobre relacionamento amoroso, entre eles o best seller 'A Cama na Varanda' e 'O Livro do Amor'. Em seu consultório particular, ela realiza terapia individual e de casal há 40 anos. Com tantas histórias reais e muita pesquisa não falta assunto! Além do twitter @reginanavarro, Regina assina uma coluna semanal no jornal 'O Dia' e um blog de grande portal feminino, isso sem falar das palestras por todo o Brasil.

Ufa! Se você deseja amar e ser amado, esse Especial Namorados é para você.

Liberte-se de qualquer ideia pronta de amor e seja feliz do seu jeito!

1. O que significa a sua afirmação de que o “amor é uma construção social”?

Significa que as relações amorosas, em cada momento, se apresentam de uma forma diferente. A questão é que a maioria das pessoas acredita que o amor sempre foi da forma que se vive hoje. Na Grécia clássica era de um jeito, na Idade Média; no século 18, Idade da Razão, o amor se tornou ridículo, ninguém queria ser escravo das emoções. No século 19, época do romantismo, o sofrimento por amor começou a ser valorizado... Atualmente, nós vivemos sob o mito do amor romântico, com características próprias que começou no século 12, quando houve a primeira manifestação entre duas pessoas. A partir do Cristianismo, o amor só podia ser dirigido a Deus. O amor romântico, que passou a ser uma possibilidade no casamento no século 19, rege as mentalidades até hoje.

2. O amor romântico pode ser considerado um problema?

Eu considero o amor romântico um grande problema, mas ele está, felizmente, dando sinais de que está saindo de cena. Quando eu critico o amor romântico, não estou criticando o fato de se enviar flores, dançar olho no olho ou jantar à luz de velas. Isso é ótimo. Estou criticando os ideais desse tipo de amor. O amor romântico é calcado na idealização do outro. Você conhece uma pessoa e atribui a ela características que ela não possui. No entanto, na convivência diária é impossível manter a idealização; você é obrigado a perceber aspectos antes não notados porque havia uma névoa impedindo a percepção da realidade. Aí, você se desencanta. Muitas vezes surgem ressentimento e mágoa pelo fato do outro não corresponder às suas expectativas.

3. Pode-se dizer que a idealização do outro é o começo do fim da relação?

A idealização é prejudicial ao casamento porque você não se relaciona com a pessoa como ela é, mas como você inventou. Por isso, vemos casais ressentidos porque se sentiram enganados. A idealização é prejudicial porque na convivência você vai acabar percebendo aspectos que não gosta no outro. Não é possível manter a idealização com intimidade.

4. Por que mesmo depois de passar por vários casamentos, muitas pessoas insistem na busca pelo amor romântico?

Essa insistência existe porque a propaganda é poderosa. Desde cedo, nos passam a ideia de que sem estar vivendo um romance a vida não tem sentido.  Filmes, músicas, livros, publicidade contribuem para essa crença.

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5. E o que falar sobre o medo que muitas pessoas sentem de ficarem sozinhas?

Nós vivemos numa cultura que prega só há felicidade se tiver um parceiro (a) amoroso. É comum escutarmos ‘Quando vai casar? Quando vai encontrar sua alma gêmea?’, você é bombardeado pela cobrança de ter alguém ao seu lado. Essa ideia de que só é possível viver bem se tiver numa relação amorosa é bastante limitadora. Há pessoas que buscam incessantemente um par amoroso e isso gera ansiedade e frustração. É fundamental que todos desenvolvam a capacidade de ficar bem sozinho. Isso até facilita experimentar relações amorosas mais satisfatórias. Penso ser fundamental que homens e mulheres reflitam sobre as crenças e os valores aprendidos e se livrem do moralismo e dos preconceitos.

6. Como você avalia o relacionamento poliamor?

O poliamor, como opção ou modo de vida, defende a possibilidade de se estar envolvido em relações íntimas, profundas e eventualmente duradouras com várias (os) parceiras (os) simultaneamente.  Poliamor como movimento existe de um modo visível e organizado nos Estados Unidos nos últimos 25 anos, acompanhado de perto por movimentos na Alemanha e no Reino Unido. Em novembro de 2005, realizou-se a Primeira Conferência Internacional sobre Poliamor em Hamburgo, Alemanha. No Poliamor, uma pessoa pode amar seu parceiro fixo e amar também as pessoas com quem tem relacionamentos extraconjugais ou até mesmo ter relacionamentos amorosos múltiplos em que há sentimento de amor recíproco entre todas as partes envolvidas.  Os poliamoristas argumentam que não se trata de procurar obsessivamente novas relações pelo fato de ter essa possibilidade sempre em aberto, mas sim de viver naturalmente tendo essa liberdade em mente. Acredito que, dentro de algumas décadas, menos pessoas vão optar por se fechar numa relação a dois e mais gente vai preferir ter relações mais livres, possivelmente múltiplas.

7. E de onde vem a fidelidade?

Até cinco mil anos atrás, aproximadamente, se desconhecia a participação do homem na procriação. Havia apenas a linhagem materna. Quando o homem descobriu que a mulher não era a única responsável por gerar um filho, ele passou a acreditar que ele sim era o único responsável. Nesse mesmo período começou a surgir a propriedade privada – meu rebanho, minha terra – e as mulheres foram aprisionadas porque os homens queriam ter certeza absoluta da paternidade para não deixar herança para os filhos de outro. Depois da pílula, entramos num processo de profunda mudança das mentalidades. Atualmente, já existem muitos casais que não consideram a exclusividade sexual fundamental numa relação.

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8. O ciúme é um sentimento considerado normal? Como lidar com ele nos dias de hoje?

Desde cedo, a criança tem muito ciúme da mãe, pois ela necessita de cuidados físicos e emocionais. Se a mãe for embora, há o risco da criança morrer. É comum o adulto, quando entra numa relação amorosa, reeditar inconscientemente aquela dependência que tinha da mãe. A possessividade, o controle e o ciúme reaparecem. Nossa cultura deveria contribuir para que os indivíduos desenvolvessem a capacidade de viver bem sozinhos. Uma relação amorosa não deve ser por necessidade de ter alguém ao lado, mas sim pelo prazer de estar junto.

9. Como explicar que o amor e sexo são impulsos independentes?

Penso que todos sabem que amor e sexo são distintos. Porém se criou a ideia de que para a mulher só tem sentido o sexo se houver amor para limitar a sexualidade das mulheres.

10. Por que a figura da mulher que gosta de sexo não é considerada com naturalidade?

É uma questão histórica. Quando o cristianismo se instalou, considerou o sexo como algo abominável. Os preconceitos sempre foram muitos. A mulher, no século 19, tinha que ser pura e casta. A marca da feminilidade era a mulher não gostar de sexo. Até hoje encontramos mulheres que sentem vergonha de gostar de sexo. A mudança das mentalidades é lenta e gradual. O meu livro 'O Livro do Amor' vai mostrando como o amor foi vivido em cada período.

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11. As relações não tradicionais despertam insegurança em algumas pessoas. Como você analisa os novos tipos de relação?

Por mais que as pessoas se sintam insatisfeitas na forma como vivem o amor, o casamento e o sexo, elas têm medo de mudar. O novo assusta, o desconhecido gera insegurança, então muitos, apesar da insatisfação, se agarram aos padrões tradicionais de comportamento. A obrigação, que até há pouco tempo havia, de que todos se enquadrassem em modelos, limita profundamente a vida das pessoas. Todos se tornam parecidos, desejando as mesmas coisas, e assim as singularidades desaparecem. Mas cada vez menos esse comportamento dá respostas satisfatórias. Assim se abre um espaço para cada um escolher sua forma de viver.

12. Você acha que os homens continuam com medo de falar sobre sexo em pleno século XXI?

Hoje você encontra homens que se libertaram do mito da masculinidade, ou seja, não estão mais preocupados em provar que são machos e para isso terem que corresponder ao ideal masculino da sociedade patriarcal – força, sucesso, poder.  Os homens que já se libertaram disso não têm medo de falar sobre sexo nem sobre as próprias emoções.

13. Quais são as suas dicas de livros para reformulações de conceitos?

Em todo o meu trabalho, tento contribuir para a mudança das mentalidades para que as pessoas vivam melhor, com mais satisfação.  Indico dois livros meus: 'A Cama na Varanda' e 'O Livro do Amor'. Tento mostrar para as pessoas que não devemos apenas repetir os valores que nos foram passados, mas refletir sobre eles e questioná-los.

Gostou da entrevista? Então deixe seu comentário, e conheça a história de vários casais no Especial Namorados.

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